Ciência, Tecnologia e Segurança no Sul Global
DOI:
https://doi.org/10.65895/bstr.v1n1.5Palavras-chave:
Ciência e Tecnologia, Segurança Internacional, Sul Global, Desenvolvimento, Dependência Tecnológica, Capacidade InstitucionalResumo
Investigamos a complexa e multifacetada relação entre ciência, tecnologia (C&T), desenvolvimento e segurança nacional sob a perspectiva do Sul Global, argumentando que, embora a capacidade tecnológica seja um pilar fundamental para o progresso socioeconômico e a defesa estatal, sua efetividade nessas regiões é criticamente mediada e frequentemente restringida por fragilidades institucionais históricas e estruturais. Partindo da premissa de que segurança e desenvolvimento são mutuamente constitutivos em um sistema internacional interdependente, o estudo desafia as visões lineares de modernização ao demonstrar que a adoção tecnológica desacompanhada de governança robusta não apenas falha em promover o desenvolvimento inclusivo, mas pode exacerbar desigualdades, fomentar o autoritarismo digital e criar novos vetores de insegurança e dependência externa. A análise centraliza-se na desconstrução histórica da suposta defasagem tecnológica inerente ao Sul Global, evidenciando que regiões como o mundo islâmico, Ásia e África possuíam ecossistemas de conhecimento e redes comerciais sofisticadas anteriores à hegemonia europeia, as quais foram sistematicamente desmanteladas por meio de processos violentos de integração ao sistema capitalista global. O texto delineia quatro fases críticas desse processo de subordinação: o desmantelamento das redes comerciais indígenas pelo poder naval e corporativo europeu; a desindustrialização forçada pela Revolução Industrial, que criou abismos de produtividade intransponíveis; a imposição de instituições coloniais extrativistas que suprimiram deliberadamente a educação e a inovação local; e, paradoxalmente, a era pós-colonial, onde a busca acelerada pela modernização resultou em uma “modernidade fantasma”, caracterizada pela importação de pacotes tecnológicos “chave na mão” sem a concomitante transferência de know-how ou fortalecimento da capacidade endógena. O artigo sustenta que esse legado histórico perpetuou um ciclo vicioso de dependência onde os Estados do Sul Global permanecem consumidores passivos de tecnologias desenvolvidas no Norte, tornando-se vulneráveis à espionagem, sabotagem e coerção econômica devido à ausência de sistemas nacionais de inovação resilientes. Conclui-se, portanto, que a superação desse cenário de insegurança e subdesenvolvimento não reside na mera aquisição de artefatos tecnológicos, mas na urgente reforma institucional e no investimento maciço em capital humano para transitar de um modelo de dependência tecnológica para um de soberania e adaptação criativa, condição sine qua non para garantir a segurança nacional e regional diante das profundas assimetrias de poder que regem a ordem tecnológica global contemporânea.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 BRICS Strategy and Technology Review

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
A BRICS Strategy and Technology Review (BSTR) adota a política de copyright em Creative Commons, garantindo acesso aberto e ampla circulação do conhecimento científico. Os direitos autorais permanecem com os(as) autores(as), que autorizam a publicação de seus trabalhos sob licença Creative Commons Attribution (CC BY), permitindo o compartilhamento, a reprodução e o uso do conteúdo para fins acadêmicos e não comerciais, desde que a autoria e a fonte original sejam devidamente creditadas. Adicionalmente, é vedada a utilização de conteúdos ou materiais de terceiros sem a devida citação da fonte, aos autores que submeterem os seus trabalhos. O uso de criações de terceiros obriga os autores a verificarem eventuais direitos antes da utilização, como a obtenção de licenças necessárias para uso de propriedade intelectual de terceiros quando aplicável, respeitando eventuais limitações de uso estabelecidas pelos respectivos titulares.